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A importância dos Ritos de Passagem: Uma reflexão para o Solstício de Inverno

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O Solstício de Inverno é para muitas vertentes dentro do Paganismo um momento de recolhimento, de reflexão existencial, de introspecção. Foi pensando nisso que hoje resolvi trazer uma reflexão a cerca dos Ritos de Passagem. De forma mais específica, uma reflexão sobre a vida a partir do Rito de Passagem da Morte, o rito funerário.

Pra quem não faz ideia do que seja um Rito de Passagem, vou explicar. Ritos de Passagem eram para culturas antigas – e hoje em dia ainda são – uma forma de marcar um período de transição na vida da pessoa, perante a comunidade em que ela vive.

Assim, em algumas tribos antigas, um menino poderia passar por um teste para provar socialmente que estava apto a ser considerado um homem. Ou, da mesma forma, um recém nascido poderia passar por uma apresentação formal à comunidade que o recebe. Se você acha que o termo não se aplica aos dias de hoje, pense em celebrações como a tradicional “festa de 15 anos” para as adolescentes. Embora hoje a “Festa de 15 anos” seja apenas uma comemoração, ela remonta ao costume de informar à comunidade que sua filha está apta ao casamento.

Embora quase todos os Ritos de Passagem praticados hoje tenham perdido sua simbologia original, é interessante que esses valores simbólicos sejam retomados. Eu já mencionei aqui em outra ocasião o quanto um Rito de Passagem é significativo para o despertar da consciência de cada etapa da vida de uma pessoa.

Ritos de Passagem são uma espécie de gatilho mental. E, a partir da estrutura social que eles acessam, podem ampliar a visão de um indivíduo sobre si mesmo, sobre a sociedade na qual ele está inserido e, por vezes, sobre a própria existência. Sei que não é difícil concordar com essa ideia. Mas sei, também, que a coisa muda um pouco de figura quando se trata do Rito de Passagem da Morte, o rito funerário.

 

O tabu sobre crianças presenciarem ritos funerários

Minha avó paterna morreu em 2015, aos 91 anos. Minha avó querida, que ajudou na minha criação e na dos meus filhos e que tanto nos ensinou a ser o que somos hoje.

Pensando no direito que meus filhos tinham de dar um ultimo adeus à bisa amada, e também na compreensão que eu desejava que eles tivessem sobre o Rito de passagem que envolve a morte (o rito funerário), achei importante levá-los ao enterro. Afinal, como pode perceber a brevidade e importância da vida uma criança que não conhece a morte?

Foi aí que algumas pessoas vieram me aconselhar que eu não levasse meus filhos ao funeral. Alegavam não ser um bom lugar para crianças, um sofrimento desnecessário. Ora, por mais que eu soubesse que aquele momento fosse doloroso para meus filhos, meu desejo era que eles entendessem morte faz parte da vida. E que, independentemente de eles crerem (como eu creio) na morte como uma passagem para outra forma de existência, aquilo era necessário.

 

O Rito de Passagem da Morte… e da vida

Devo dizer que o velório e sepultamento foram momentos difíceis, claro. Pois todos ali sofriam. Mas, naquele momento final, todos aplaudimos minha avó. Naquela hora eu disse alto “gratidão”, porque sabia que era exatamente esse o sentimento que ela deixava em nossos corações.  Ela cuidou da gente durante toda sua vida, e até pra morrer foi sutil. Em seus últimos momentos de vida, quando fomos visitá-la (ainda no hospital), ela se despediu de todos. Depois ela esperou que todos saíssemos de perto. Dormiu e, assim, delicadamente, passou para o Outro Mundo. Exatamente da forma como ela dizia em vida que gostaria que isso acontecesse.

Depois que minha avó passou para o Outro Mundo, eu considerei que o mais importante era que meus filhos soubessem o que a morte significava. Afinal, existem muitas perspectivas a cerca dela.

 

Eu desejava que eles soubessem que a morte é – assim como diziam os Celtas –

“o inverno da alma”.

 

Eu desejava levá-los à reflexão de que, sendo a morte o inverno, a vida então compreende a todos as outras estações. O nascer é a Primavera, o desabrochar da percepção e reconhecimento do mundo. O Verão é o ápice de nossas potências, a máxima força de criação. E o Outono é a colheita dos frutos oriundos das sementes de nossas escolhas de vida.

Para meus filhos, eu desejava que eles percebessem que a cada dia temos mais uma oportunidade nesse Mundo. Oportunidade para experimentarmos absolutamente tudo de novo que podemos conhecer. E que, igualmente, podemos revisitar tudo de maravilhoso que já conhecemos. São oportunidades diárias que vão de viagens inusitadas para conhecer novas pessoas a um simples jantar em família. Momentos de desfrutar da presença desses que são tão especiais pra gente. São novas chances para a descoberta de novos amores. E novas chances para reafirmar para aqueles que amamos o quanto são preciosos pra nós.

Pra mim – e creio que hoje para meus filhos também – a felicidade não é uma conclusão ao final da jornada da vida. Ela é um caminho mais bonito onde podemos fazer essa jornada. Já a morte, assim como Rito de Passagem relacionado a ela, é de fundamental importância nessa compreensão. Porque é na tomada de consciência da passagem da Morte que se equilibra a nossa consciência de vida e de tempo. Do tempo não determinado que temos para fazer tudo que desejamos, e também do tempo que temos para desfrutar de tudo que já conhecemos.

Essa é minha reflexão nesse Solstício de Inverno. Espero que ela te leve a uma viagem interior em igual ou maior profundidade.

Com as bênçãos dos Deuses,

Muita paz e muita luz a todos!

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1 Comentário

  • Reply
    Nara
    22 de junho de 2018 at 12:05

    Amei

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